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Boas Novas

Boas notícias. Fui convidada pela Editora Andross a participar de uma antologia de contos de terror! O lançamento será dia 21 de novembro.

Depois darei mais detalhes, o que posso adiantar que o título do livro será: Marcas na Parede…. arrepiante! rs

Natureza morta? Nunca!

Natureza viva, vibrante, onipresente.

Coração, alma, sangue verde!

Em cada pedaço do mundo, em cada célula do meu corpo…

Eram 05h30 da manhã em Langkawi – Malaysia. Ainda sob o efeito de um fuso horário de 11 horas (a mais), acordei e não conseguia mais pegar no sono.

Para não acordar a minha companheira de quarto, decidi sair para fumar um cigarro e curtir a solidão da madrugada. Preparei um café expresso (santa maquininha dentro do quarto) e segui o caminho até a praia. O dia amanhece mais tarde na Malaysia, portanto ainda estava bastante escuro.

As chegar na praia, fui brindada com a paisagem abaixo. A Grande Mãe, brilhando em todo seu esplendor. Ali percebi que na presença dela, nunca estamos só.

A Dama Negra

CHINON – 1790

O trote do cavalo atraiu o olhar da curandeira que assistia tudo pela janela de sua cabana. O homem, elegantemente vestido, atravessou a vila com altivez em direção ao Chateau Chinon.

A mulher apertou os olhos cansados enquanto buscava no velho baú as cartas do tarot. Empurrou os restos do parco jantar para um canto abrindo espaço para as cartas. A seqüência deixa seu coração apertado:

- O louco. Ele busca aventuras.

Tira uma nova carta e depara-se com a imperatriz:

- A Dama Negra, o encontro será certo.

Outra carta sai do monte:

- A torre, algo de terrível nascerá deste encontro.

Quase sem coragem retirou a última carta e com um grande estremecimento a colocou no final de todas.

- A morte.

***

Guillaume atravessou a “Ville” sem notar as pessoas a sua volta. Seu destino é certo: O Chateau Chinon, onde finalmente conhecerá a famosa Condessa. As histórias sobre a “Dama Negra” chegaram como sussurros assustados aos ouvidos do Rei, que enviou seu melhor vassalo para descobrir o que era verdade e o que eram “crendices” de camponeses.

A lua já começava a despontar no céu, quando finalmente ele chegou aos portões do castelo.

Foi conduzido até uma sala íntima, onde a lareira ardia, exalando o cheiro de madeira queimada. Observando aquela atmosfera, um arrepio atravessou seu corpo. Aquele já havia sido o lar de Delfim Carlos VII – Rei da França entre 1422 a 1461 e local onde fora visitado por Jeanne D´Arc “A Louca de Orleans” como era conhecida de forma jocosa pelos nobres da corte do Rei Luis XVI. Aquelas paredes guardavam segredos e traições. O maior deles, era o que cercava a morte do Conde Philippe Monvandelle.

****

Os sons noturnos invadiram a masmorra despertando Valerie de seu sono hipnótico.

Afastou as pesadas cortinas de veludo negro que protegiam seu leito, espreguiçando-se feito um felino.

Seus olhos ganharam um tom avermelhado quando percebeu a aproximação de alguém, voltando ao normal ao ver que se tratava de Marie, sua camareira.

- Entre, Marie

O coração acelerado e a respiração entrecortada da garota, denotam o terror por estar na presença da Condessa de Morvandelle..

- Boa noite, Madame. Trouxe seu vestido.

Valerie aspira o terror da serviçal e a fome queima seu estomago.

- Que aconteceu Marie? Porque estás tão nervosa hoje? – observando com sofreguidão sua jugular pulsante.

- Não há nada, madame. Sabeis que sou uma tola e não sei me portar diante de sua presença.

Valerie afastou-se sem perceber o brilho de ódio que transpassou os olhos de Marie. Ela não tinha tempo para tolices. Precisava se preparar para aquela noite. Sabia que ele estava chegando.

Despiu as vestes expondo o corpo perfeito aos olhos invejosos de Marie. A coloração doentia da pele era a única coisa que destoava da descrição de uma Deusa: longos cabelos negros que chegavam à metade das costas, cintura fina e delgada, pernas longas e torneadas, nádegas redondas e firmes, seios fartos que fariam qualquer homem desejar morrer só pelo prazer de tocá-los. A boca carnuda, trazia a promessa de um sorriso, os olhos eram duas esmeraldas que tiravam a respiração de quem os encarasse mas também eram capazes de cortar a carne como navalha, quando estavam enfurecidos.

Marie começou ajudá-la a vestir o pesado vestido vermelho. Ao encostar na pele fria um esgar de nojo perpassa seu rosto, mas ela tratou de disfarçar. A Condessa permaneceu indiferente à camareira, envolta nos seus pensamentos soturnos. Se fosse possível, seu coração estaria batendo no mesmo ritmo de seus pensamentos. Mas havia muito tempo que isto não acontecia, pois fora transformada numa criatura da noite, uma bebedora de sangue, uma vampira.

***

FLORESTA DE CHINON – 1779

Uma forte chuva ensopava as vestes da guarda do Conde de Monvandelle. Os cavalos, impacientes, ameaçavam todo o momento jogar seus cavaleiros ao chão. A noite sem luar tornara a floresta de Chinon assustadora, e todos ansiavam pela segurança dos muros do castelo.

Dentro da carruagem o casal fazia a viagem em total mutismo. Valerie estava entediada e com ódio de sua irmã. Havia descoberto que ela mantinha um caso secreto com seu marido. Seu ódio não era gerado pelo amor que supostamente deveria sentir pelo conde. Isto seria impossível, já que ele não passava de um velho bêbado e devasso, mas sim pelo fato de sua irmã achar que poderia tomar seu lugar. Envolta em seus pensamentos, assustou-se com os gritos dos soldados e o solavanco da carruagem que parou abruptamente.

Tentou enxergar através da janela e com horror viu um vulto imenso atacando um dos soldados, degolando-o na mesma hora. Os demais tentavam atingi-lo com suas espadas, mas parecia que sua carne era feita de ferro, pois nada o feria. Um a um, todos tombaram. Como por encanto, a chuva parou e a lua apareceu por detrás das nuvens, iluminando a clareira onde jaziam os corpos mutilados e o misterioso homem.

Procurou a segurança dos braços do Conde, mas, para sua surpresa, ele a havia abandonado a própria sorte, correndo através das árvores.

- Covarde! – gritou para o vazio com desespero na voz.

- Não se preocupe Madame, vós ainda o vereis.

A voz rouca e melodiosa fez seu sangue correr mais rápido. O mesmo homem, surgira em frente à porta escancarada da carruagem, deixando-a sem fala. Ele possuía um dos mais belos rostos que Valerie jamais viu. A pele excessivamente branca era emoldurada por sedosos cabelos loiros. O queixo forte possuía uma covinha que suavizava as linhas quadradas do rosto. A boca era carnuda e vinha acompanhada de um sopro entorpecente. Mas o que cativou Valerie foram os seus olhos. Profundos e azuis, com sua íris entremeada de traços acinzentados, remetiam ao mar, cuja placidez da superfície oculta os demônios que reinam em sua profundeza.

Valerie foi tomada pelo entorpecimento. Aqueles olhos a chamavam para uma aventura de prazeres e dor. Seu corpo inteiro ansiava pelas mãos daquele homem a ponto de sentir-se ruborizada. Um levantar de sobrancelhas mostrou que o ele sabia o que ela queria.

Tomou suas mãos e a conduziu para a noite. Por mais estranho que aquilo parecesse, sentiu como se estivesse voltando para casa. Os anos de tédio, rancor e noites solitárias ao lado do marido desapareceram de sua mente, enquanto o misterioso homem a aninhava em seu peito largo, sussurrando as maravilhas que a aguardavam estando ao seu lado.

- Tu sempre estarás segura ao meu lado. Busquei-te pela eternidade, te desejei e amei desde tempos remotos. Tu serás sempre o meu verdadeiro amor.

Ele a tomou em seus braços beijando seus lábios até sangrar. Um gemido escapou de sua garganta enquanto o homem erguia as várias saias, puxando sua anágua para tocar suas coxas.

Suas mãos geladas, subiram até o ponto entre suas pernas, enlouquecendo-a de prazer. O restante do vestido foi rasgado com fúria expondo seu corpo jovem ao desejo insano daquele homem.

Deitou-a na relva com reverência. Seus olhos prendiam o olhar de Valerie, prometendo prazeres inimagináveis.

Tomou seus seios entre os lábios, sugando os bicos intumescidos enquanto as pernas dela enroscavam-se nos quadris do estranho. Mãos nervosas procuravam afastar as roupas dele, que eram a única barreira entre seus corpos. Quando a pele fria encontrou a pele em brasa dela um estremecimento tomou sua alma. Ela sabia que estava perdida. Que daquele momento em diante iria onde ele quisesse, que sua alma e sua vida lhe pertenciam para sempre. Ele encaixou sua masculinidade entre as pernas da mulher, puxando sua orelha para bem perto de seus lábios:

- Minha doce Valerie, eu te ofereço o maior dos presentes e a maior das maldições. A vida eterna. Se tu quiseres me acompanhar nesta aventura, apenas diga sim.

- Sim, meu amor.

Ele a penetrou com fúria enquanto seus dentes afiados rasgavam a pele alva de seu pescoço. Um grito de prazer e dor acompanhou o movimento desenfreado dos quadris de Valerie, que sentia a cada estocada, sua vida esvaindo do corpo. No auge do prazer, ele rasgou o próprio pulso e fez com que ela bebesse do seu sangue maldito.

Uma dor insuportável correu por seu corpo. Tentava a todo custo respirar, mas seu pulmão estava fechado. Arregalou os olhos e encontrou o olhar do vampiro que agora eram duas brasas. Tentou gritar mas nenhum som saía de sua garganta. Antes de cair desacordada ouviu a voz do anjo demoníaco sussurrar:

- Minha doce esposa, nos encontraremos novamente.

Os vassalos do Conde de Monvandelle encontraram um cenário de terror na manhã seguinte. Corpos mutilados espalhavam-se em torno da carruagem vazia. Por todo o dia, procuraram o Conde e a Condessa, encontrando-o a alguns metros de distância totalmente transfigurado. A cabeça havia sido arrancada e empalada. A única sobrevivente foi encontrada em uma caverna, nua e ensangüentada.

Daquele dia em diante, os hábitos da Condessa tornaram-se estranhos. Não queria comer, trancava-se em seu quarto durante o dia, proibindo que qualquer pessoa se aproximasse, saindo somente quando a noite chegava.

Apesar de mais bela do que antes do misterioso ataque, trazia sempre uma aparência doentia, com sua pele quase translúcida.

O mais estranho foram os acontecimentos posteriores. Vassalos desapareciam misteriosamente, animais apareciam estraçalhados nos currais e estábulos. O terror tomou conta da pequena vila medieval onde as pessoas evitavam sair à noite.

***

Guillaume saiu de seu devaneio quando o perfume de lavanda atingiu suas narinas. Na porta, a mais divina de todas as mulheres o observava com um sorriso misterioso.

- Minha escusa, nobre senhor. Espero não tê-lo feito esperar demais.

Ele ficou emudecido perante a beleza daquela mulher. Sentiu que o ar fugia de seus pulmões e um estremecimento tomou sua alma.

- Senhora, para ser agraciado com tamanha beleza eu aguardaria a vida toda.

- Pois então pouparei o seu tempo.

As palavras misteriosas acenderam um alerta na mente entorpecida de Guillaume. Ele tinha uma missão e não podia deixar-se dominar pelo desejo.

- Condessa, o que me traz até vossa presença são relatos inquietantes que chegaram ao conhecimento de vossa majestade. Estes os relatos dão conta do sumiço de muito de seus vassalos e da insegurança que ronda este nobre vilarejo.

- Mas de onde vem tamanho absurdo, Monsieur? – apesar do tom descontraído, Guillaume assustou-se com a fagulha que atravessou o olhar da Condessa.

- Temo dizer que os relatos vieram de dentro de seu próprio castelo, Madame. – retirando do bolso um pedaço de papel que trazia o selo do Conde de Monvandelle.

Ao ler o que estava escrito, uma fúria cega apoderou-se de Valerie. Seguiu para a mesinha próxima a Chaise Loungue, procurando o pequeno sino de prata. Tocou-o freneticamente até que na porta surgiu a camareira Marie.

- Marie, acredito que já conheça Monsieur Guillaume Phillipe Vingnon. Monsieur Guillaume é com prazer que apresento Mademoiselle Marie Isabelle Pouillieute, minha irmã.

Atônito, o homem olhou para a camareira, a mesma que havia conduzido-o até aquela sala, e só então percebeu certa semelhança com a Condessa. Os cabelos também eram pretos, mas de longe carregava a beleza e sensualidade da irmã. Seus olhos eram apáticos e o corpo magro ficava escondido por baixo do vestido de tecido barato.

Marie, acuada em um canto, olhava a irmã com ódio e medo. Sua traição havia sido descoberta antes do tempo. Esperava a presença do vassalo com o sol alto, quando teria a chance de fugir da fúria de sua irmã e assistir de camarote a destruição daquele monstro. Seria a oportunidade tão esperada de finalmente tomar o seu lugar. Só não imaginava que o Rei enviaria um tolo sem escolta até o covil do demônio.

Sons de gritos e espadas sendo empunhadas, chegaram aos ouvidos apurados da vampira. Com cautela, aproximou-se da janela. Uma horda de aldeões carregando tochas e cruzes, travaram breve batalha com os guardas dos portões, e agora tomavam os jardins, forçando a porta de entrada.

- Peguem o demônio! Queimem a bruxa!

O ódio transformou a bela Condessa em um ser assustador. Os olhos dantes verdes, brilharam como dois rubis, e entre os lábios surgiram duas enormes presas.

Antes que Marie tivesse tempo de reagir, a vampira já estava ao seu lado, cravando os dentes em seu pescoço e sorvendo com voracidade o líquido viscoso.

O corpo inerte da irmã foi largado quando sentiu algo queimando seu peito.

Um grito de terror reverberou pelas paredes do castelo. De modo sorrateiro, Guillaume aproximara-se dela, enfiando uma adaga de prata em seu peito. A Vampira empurrou o homem, que caiu com o pescoço quebrado.

A dor espalhou-se tornando seus passos mais lentos. Neste momento, a porta foi escancarada e os aldeões adentraram a sala, à caça da Condessa.

- Ela está aqui!

***

Ao saberem da chegada do vassalo do rei, os líderes da pequena vila tomaram coragem para invadir o castelo. Após comungarem com o pároco da igreja local, muniram-se de tochas, foices, cruzes e muita determinação, seguindo para os portões onde os poucos guardas que restaram, não tiveram a menor chance. Um fervor alucinado os conduziu à porta de entrada, que foi forçada até que finalmente adentraram no covil do demônio.

O medo fazia seus corpos transpirarem e a coragem ameaçava deixá-los. O ambiente recendia a morte. Um vento gelado atravessou seus corpos, com mãos frias e vozes demoníacas. A coragem começou a abandonar seus corações, mas já era tarde demais para recuar. Precisavam encontrar a Condessa e acabar com a maldição que havia tomado aquelas paragens. O grito horrendo atingiu seus ouvidos e num último ímpeto, correram em direção do som.

O vulto atingiu-os antes que tivessem tempo de reagir. Corpos amontoaram-se na entrada do castelo. Gritos de dor e desespero enchiam de prazer os ouvidos do homem. Um banquete de dor e sangue matou sua fome.

Os aldeões corriam em desespero derrubando suas tochas e deixando para trás seu símbolo de fé, tão inútil diante de tamanho poder. Em pouco tempo o fogo lambeu as cortinas subindo pelas paredes.

Antes que o fogo tomasse completamente o ambiente, o ser demoníaco refugiou-se no lugar onde sua amada jazia ferida. Tocou seu rosto frio e com todo amor a ergueu em seus braços. A fumaça começou a penetrar na sala, trazendo o fogo que teria o poder de exterminá-los. Com leveza, saltou do alto da torre, e seus pés quase não fazem barulho ao tocar o solo. Com o castelo já completamente em chamas, segue rumo à floresta, tendo como testemunha a lua, sua algoz, que os observava com a indiferença de uma Deusa Frígida.

***

Os anos passaram em Chinon. Daquela noite, restaram apenas as cinzas do castelo. Os poucos que sobreviveram, afirmaram que a Condessa morrera queimada, juntamente com o vassalo do rei.

Não houve tempo para represálias por parte de Luis XVI. Pouco tempo depois estourou a revolução francesa, que o levou, juntamente com Marie Antoinette, à Guilhotina.

Os sons de “Vive la Révolution” tomaram as ruas do povoado. Todos acreditavam que era o fim da maldição e da miséria para o povo.

A velha curandeira já não tinha forças para sair de seu leito. Ela sabia que seu tempo estava acabando. Ouvia a alegria dos jovens e seu coração apertou-se. Com as mãos fracas pela idade, puxou pela última vez as cartas do tarot.

- Estão todos condenados. – Sibilou, fechando os olhos pela última vez.

A carta da Imperatriz jazia no solo, trazendo a promessa de noites amaldiçoadas.

- Ouça!

- O que?

- O barulho…

- Que barulho?

- Este, ouça!

- Você está louca, volta a dormir.

- Não sou louca, se você parasse de roncar seria mais fácil ouvir. Agora!

- Deve ser um gato rondando a lixeira, agora me deixa dormir em paz!

- Estou com medo, me abraça?

Ranger do colchão, braços gelados em volta do corpo trêmulo.

- O que foi agora?

- Parece que tem alguém no quarto…

- Ai que inferno, hoje se ta impossível mesmo!

- Tem alguém aqui, eu posso sentir…

- Deixa disto mulher, você anda imaginando coisas!

- Olha!

- O que porra?

- Ali no canto do quarto, tem um vulto se mexendo!

- Droga! Ei, quem é que é que tá ai? Eu to armado!

Luz sendo acesa. Clarão iluminando todos os espaços.

Um casal aparentemente chegando de viagem.

Cara de cansaço. Uma criança começa a chorar…

- Tudo bem filha, a gente já chegou, vou te por na cama…

- Não quero mãe, manda eles irem embora!

- Quem minha filha?

- Aqueles dois, deitados na cama…

- Não tem ninguém na sua cama filha, vai troca logo de roupa. E para de inventar que tem fantasma na casa!

A Semana

Tudo aconteceu tão rápido!

Tento lembrar, mas está confuso. Como é que isto aconteceu? Por quê? Sinto meu peito doer e meus olhos embaçados.

Minha semana foi idêntica às outras… ou não? Houve algo de diferente, mas o que mesmo? Claro! Como pude esquecer? O homem! Aquele maldito homem!

Segunda-feira. Estava no metrô indo trabalhar quando senti aquele cheiro horrível! Nossa, alguém matou um gambá e trouxe na marmita!

Levantei a cabeça e deparei-me com ele. A idade? Não dava para saber! O corpo lembrava alguém de no máximo 60 anos, mas os olhos… Estes pareciam ter a eternidade do mundo! Eram profundos, quase acusadores! Como se pudessem desvendar todos os meus medos, todos os meus sonhos…

Um arrepio atravessou minha espinha e alojou-se no coração. Por que de repente ele me parecia tão familiar?

Ele vestia trapos, os cabelos eram um emaranhado de fios imundos e grossos. O que ainda restava dos dentes eram pontas podres, como icebergs perdidos num mar de saliva.

Pensei em dizer que não tinha dinheiro (o que não era mentira, o carro estava consumindo todos os centavos do meu salário), mas, antes de eu ter tempo de falar, sua boca abriu-se e, como um trovão vindo de muito distante, começou a declamar uma poesia macabra. Virou-se e desceu do metrô. Antes mesmo de piscar meus olhos, sumiu na multidão.

Por que eu? Com tantas pessoas naquele vagão apinhado, por que o desgraçado tinha que parar bem na minha frente?

Preciso de ar, preciso agüentar mais um pouco! Por que sinto tanta dor? Por que minhas pernas não se mexem? Quem são estas pessoas à minha volta? Vejo luzes. Acho que é uma ambulância. Tenho que agüentar! Tenho que me lembrar!

Cheguei ao escritório com as palavras do mendigo soando dentro de mim.

– Que loucura! – pensava entre risadas nervosas e arrepios. – Gente assim tem que ficar internada e a chave ser jogada no rio.

Já era fim de dia quando o telefone tocou. Atendi automaticamente. Por segundos a minha respiração ficou presa. Do outro lado da linha, minha mãe. Há quantos anos não nos falávamos? 10, 15 anos? Claro, a última vez foi depois do nascimento da minha filhinha… eu era uma garotinha de 15 anos. Uma criança trazendo ao mundo outra criança. Lembro dos seus olhinhos, de seu choro vigoroso como uma cantiga de ninar nos meus ouvidos, mas foi só isto. Antes que eu tivesse tempo de pegá-la em meus braços ela foi levada para longe de mim, para nunca mais vê-la. Levada por aquela mulher que agora estava ao telefone me chamando de filha.

Ela queria me ver, queria explicar por que tinha feito aquilo, precisava que eu a perdoasse. Marcou o dia no qual contaria algo que mudaria minha vida.

Saí transtornada do escritório. Primeiro o mendigo, agora minha mãe, o que mais faltava acontecer?

Alguém se aproxima, ele fala algo, mas não consigo escutar. Eu só queria conseguir respirar! Eu vejo preocupação escondida por baixo de um sorriso que tenta me tranqüilizar. Ele mexe nas minhas pernas e um grito involuntário sai da minha garganta. Eu quero sair daqui!

Terça-feira parece que nunca vai terminar. Sou um zumbi, olhando as horas escorrer pelo relógio: 10:00, 10:01, 10:02, 10:03…

– Droga! Por que esta merda de relógio não anda mais rápido?

Voltei pra casa e tentei me distrair, mas foi impossível. O que será que ela tem a me dizer?

Finalmente o dia chegou. Era quarta-feira e estava indo ao encontro da mulher que já fora meu mundo e que agora era a pessoa que eu mais odiava na vida. Ela estava mais velha, antes não tinha aquelas rugas em volta dos olhos, nem aquele tremor nas mãos. E para onde foram os longos cabelos negros e sedosos? Agora parecia mais um carpete acinzentado.

Ficamos nos olhando, ela constrangida, eu desconfiada. Ela pegou em minhas mãos e pediu que eu sentasse ao seu lado. Então, começou a falar.

O que é aquilo no meio da multidão? Parece um cão negro. Parece o mendigo. Não consigo enxergar direito. Sinto algo escorrendo da minha boca. Que bonito, estou babando no meio da rua. Mas não é saliva, é algo viscoso e vermelho… é sangue!

Em um só fôlego ela contou que meu pai a tinha obrigado a tirar a menina de mim. Ele sabia que eu era teimosa o suficiente para querer criar minha filha sozinha e ele nunca admitiria esta vergonha na nossa família. Como a filha de um pastor iria ter um bebê ilegítimo? Isto acabaria com a moral dele na congregação. Então, naquele dia, ela pegou a criança e a levou para um orfanato fora da cidade, para que lá ela encontrasse um lar. Confessou que chorou durante todas as noites – por remorso e depois de saudades, quando eu fugi de casa e nunca mais voltei. Ela tinha descoberto meu telefone através de uma amiga de infância, única pessoa com quem eu ainda conversava naquela maldita cidade do interior.

O que são estas fagulhas? Uma serra? Alguém está cortando ferro bem próximo a mim. Eu me lembro daquela porta de carro, é do meu carro. Estou presa entre as ferragens do meu próprio carro!

O que meu pai não sabia era que durante todos esses anos ela mantivera contato com o orfanato e finalmente conseguiu descobrir o paradeiro da menina. Começou a visitá-la escondida do marido e só depois dele ter morrido (meu pai morrera e eu não sabia!) há um mês atrás é que ela teve coragem de contar à menina quem ela era e como me achar.

A pressão sobre meu peito diminuiu. Já não parece tão ruim respirar. Mas ainda tem a dor e a confusão. Como aquele maldito mendigo foi parar ali ao lado do bombeiro? E aquele cachorro? Por que não pára de me olhar?

Fiquei muda. De repente a dor que carreguei durante tantos anos estava indo embora. Minha filha estava viva! E queria me conhecer! Abracei minha mãe e chorei. Alegria, tristeza, saudades, perdão se misturaram naquele abraço apertado.

– Onde ela está? Quando posso vê-la?

Minha mãe pediu calma:

– Mais um pouco de paciência, filha! Eu vou na frente e preparo tudo para que você encontre sua menina lá em casa.

Estou sendo tirada do carro. Novamente tento mexer a cabeça e não consigo. Só percebo os olhares de horror e pena das pessoas que me rodeiam. Só ouço alguém falar perto de mim: “Tão nova! Olha que estrago!”

Quinta-feira. Depois de uma madrugada insone, onde foi dito tudo sobre nossas vidas, nossas dores e alegrias, conquistas e derrotas, finalmente levei minha mãe para a rodoviária. Ela voltaria para casa e prepararia minha filha para que eu pudesse conhecê-la.

Aproveitei o dia para fazer compras! Quinze anos! Devia estar uma mocinha linda! Como ela seria? Pareceria comigo? Ou com o pai? Nossa, precisava comprar um presente para cada ano de aniversário que não passamos juntas.

Finalmente sexta-feira chega! Peço dispensa do trabalho e feliz coloco os vários pacotes dentro do porta-malas. Estou indo encontrar a minha filha!

Sou presa a uma maca. Olho de canto de olho e vejo sangue escorrendo pra fora dos destroços. Vejo um enorme caminhão. Está engolindo o que antes era a frente do meu carro. Por que hoje? Minha filha me espera!

Tamborilo no volante tentando não enfiar o peso do meu pé no acelerador. Tenho que manter a calma, porque esta estrada é muito perigosa! Minha filha está a poucos quilômetros de mim.

Por que de repente a dor foi embora? Por que parece que o mundo ficou em silêncio? Consigo me mexer. Ergo minha cabeça e vejo que o cão se aproxima de mim.

Droga! Isto é hora para um comboio? Que maldição! O capim em volta da pista está pegando fogo. Algum idiota deve ter jogado uma bituca de cigarro pela janela.

Resolvo que não vou esperar! Vou ultrapassar, afinal este trecho é tranqüilo. Tomo fôlego e sigo em frente na contramão! Mas, do nada, a fumaça desce sobre a estrada, como uma grande sombra que encobre meus olhos… Quando saio dela, não há mais tempo, o caminhão já está em cima de mim.

Agora caminho pela estrada. À minha frente há uma velha. Apesar de sua aparência assustadora e de trazer um capuz cobrindo sua face, sigo seus passos. Por um instante olho para trás e vejo um verdadeiro inferno instalado: bombeiros, sirenes, socorristas que tentam a todo custo trazer vida ao corpo de uma mulher no asfalto. Olho com mais atenção e percebo que na verdade sou eu. Por entre a fumaça que sobe dos destroços vejo novamente o mendigo, mas sua aparência agora é de limpeza e finalmente eu o reconheço: meu pai. Ele sorri para mim e acena um adeus.

Continuo a caminhar ao lado da velha enquanto as palavras proferidas no início desta semana estranha me perseguem:

” Uma sombra descerá sobre seus olhos e a verdade se revelará

Os sonhos se desvanecerão e neste dia você morrerá…

Mas, antes, você perdoará uma dor antiga.,

Viverá um momento de alegria,

Então tudo se acalmará.

Porque não adianta fugir do destino

Pois a Senhora da Foice

Não atrasa o dia do escolhido,

E no momento da sua morte por você ela procurará.”

O Observador

Novamente o arrepio na espinha! Carol olha ao redor buscando de onde vem esta sensação de ser observada – É a terceira vez que sinto isto só esta semana! Mas só o que vê, são as mesmas árvores e prédios já conhecidos.

Apressando o passo, chega a Av. Ibirapuera correndo em direção a entrada do shopping onde trabalhava.

***

Ele observa Carol parar de repente, olhando na direção da onde estava. Esconde-se atrás da árvore esperando que ela não o tivesse notado. – Ainda não é hora! De onde está consegue sentir o cheiro de sua pele. Um misto de rosas e medo. Passa a língua nos lábios, absorvendo todos os aromas da rua.

***

- Carol, você tem que parar com esta NEURA! Fala Pedro, entre um gole de chopp e uma mordida no bolinho de batata a sua frente. As mesas do Windnuk – tradicional bar alemão – estão apinhadas de gente. Mas mesmo assim ela continua com a sensação estranha, como se alguém a olhasse à distância. Ao contar sua desconfiança para o namorado, recebe uma risada como resposta.

- Olha, vamos fazer o seguinte, hoje eu durmo na sua casa e assim você perde o medo, ok? Ou quem sabe isto não seja resultado daquele baú recheado de “macumba” que tem na sua casa?

- Aquilo não é “macumba” – responde de mau humor – é a herança da minha família. Aquilo é um pedaço da minha história e não admito que você trate o assunto com tanto desprezo!

- Tudo bem! Não precisa ficar nervosa – Pedro pega as mãos da namorada tentando acalmá-la. – Eu não quis te ofender, juro! Mas só acho que às vezes você exagera! Tudo bem que São Paulo não é modelo de segurança, mas também não estamos no Iraque.

- Pedro, você não tá entendendo, eu sinto como se um par de olhos me perseguisse o tempo inteiro. Deixa pra lá, eu vou embora antes que fique tarde demais. Você me leva pra casa?

***

Na calçada oposta ao bar ele a via chorar. Com certeza era culpa daquele idiota na mesa. Sua vontade era de arrancar os olhos do desgraçado. Mas havia tempo. Ela ainda não estava preparada.

***

Dispensando o namorado na porta do apartamento, a garota segue direto para o quarto, onde abre a tampa do velho baú. Lá dentro velhos recortes de jornal, muitas fotos, livros e os cadernos com capa preta que escondem um passado que sempre lhe causou medo e fascínio. Abre um dos diários e as palavras saltam aos seus olhos (Lua Cheia, Lua Negra, Esbath, Sabbath) enquanto a voz de sua avó Mirtes ressoa no fundo de seu cérebro:

“ Alecrim é ótimo para proteção”.

Fuçando no fundo do baú, encontra uma caixa menor, contendo vários saquinhos com ervas secas.

- Vamos lá Dona Mirtes, se bem não fizer, mal é que não há – resmunga enquanto coloca a erva dentro de um “incensário” que encontra na mesma caixa. O aroma inconfundível se espalha pela casa trazendo tranqüilidade ao sono da garota.

***

- Ergue a cabeça para o alto, sentindo o forte cheiro que escapa pela janela do apartamento no 3º andar. Um brilho que poderia ser de emoção passa rapidamente por seus olhos e ele se afasta, sumindo na noite escura.

***

Um raio de sol se inflitra no quarto, acordando-a de seu sono. Olha para o relógio e vê que já são 11:00 do domingo.

- Nossa que noite maravilhosa! Espreguiçando sai da cama onde tropeça no baú que ainda estava com a tampa aberta. – Obrigada pela dica, Dona Mirtes! Recolhe a fotografia de sua avó que havia caído no chão. Com carinho beija a face da velha senhora e sai cantarolando em direção ao banheiro.

Depois de um delicioso café da manhã, decide ir para o Parque do Ibirapuera, aproveitar aquele dia de calor. Em sua companhia, alguns dos cadernos e diários antigos.

Senta-se sobre uma toalha e fica observando o jato de água que sai do meio do lago. Com um suspiro de satisfação se ajeita melhor e começa a folhear o diário que um dia pertenceu à avó materna.

O ronco no estômago lembra Carol que é hora de voltar para casa. Na cabeça milhões de dúvidas enchiam seus pensamentos. Sempre soube que sua família era pagã, mas nunca teve interesse em seguir seus passos. Mas hoje, após ler sobre tantos mistérios, tantos feitiços, uma pontada de remorso por não dar mais valor as suas raízes, a acompanha até seu apartamento.

Colocou a chave na porta e novamente o arrepio a atingiu. Olhando para trás vê algo saindo das sombras na escadaria de incêndio.

***

- Hoje é o dia! Está na hora de nos conhecermos pessoalmente. Saindo do local onde esteve escondido até aquele momento, ele se revela para uma assustada Carol.

***

Com a respiração suspensa, ela observa a sombra movendo-se por trás da porta de incêndio, até que, com um misto de alívio e vergonha, percebe trata-se de um enorme gato preto. – Ei gatinho, está perdido? Recebendo como resposta um miado forte, enquanto ele se esfrega em suas pernas. – E ai, quer um pouquinho de leite? O gato praticamente atira-se em seu colo. – Eu acho que isto é um sim!

Abre a porta, colocando o gato no chão e segue para a cozinha. – Sabe de uma coisa? Você me lembra alguém…

Uma vertigem a atinge, forçando-a a apoiar-se na parede do corredor. Devagar, vira-se na direção de onde estava o gato e percebe que ele já está confortavelmente instalado na casa, seus olhos amarelos fixos em seu rosto, e se assim fosse possível, um ar de sorriso, paira sobre seus lábios.

Nitidamente vem a tona a imagem da foto de sua avó sentada em uma cadeira de espalmar alto, sorrindo de forma misteriosa, enquanto acaricia um enorme gato preto em seu colo.

***

Parabéns garota. Finalmente você está pronta.

Era uma garota bonita, mas sem ser uma beldade. Um pouco acima do peso, escondia o corpo embaixo de roupas largas.
Sempre que saia com as amigas sentia-se diminuída, mesmo elas repetindo vezes e vezes de como ela era inteligente e querida. Como se inteligência fosse ingrediente imprescindível para que os homens olhassem para ela. Homens gostam de outro tipo de atributos, e costumam, na sua grande maioria, ignorar o que está dentro da caixa craniana.

Por ser muito tímida, sempre se amparava nas outras garotas para sair e conversar com estranhos. No final, as amigas sempre se davam bem, muitas vezes em cima daquele carinha que ela ficou momentaneamente “apaixonada”.

Outra balada no Sábado. A galera combinou de ir ao O’Malley’s e ela arrumou-se toda para tentar diminuir a seu sentimento de pequeneza, mas sabia que no final, o lugar apinhado de gente faria com que suasse, fazendo o cabelo (artificialmente) liso, desmoronar junto com a maquiagem.

Lá estavam elas, mulheres solteiras a procura. O local recendia a cerveja e fumaça de cigarro. Rastrearam o lugar em busca dos melhores espécimes masculinos. Num canto do balcão, amigos em mangas de camisa, comemoravam o final de mais um dia, regado a muitas Guinnes.

Depois de algumas trocas de olhares e poses sensuais, finalmente elas conseguiram chamar a atenção de todos, que automaticamente, pediram para sentar na mesa. A conversa rolava solta, menos para ela. Sentindo-se deixada de lado, buscou com o olhar a porta do banheiro, quando se deparou com a visão. Loiro, 1,85, cabelos arrepiados, olhos azuis, barba por fazer, sorriso Colgate. Quase engasgou com a cerveja, o que arrancou risadas debochadas dos “novos amigos”. Os segundos que se distraiu com o incidente foi o suficiente para perdê-lo de vista.

Num rompante de coragem, resolveu ir atrás daquele assombro de homem. Buscou em cada canto do bar, subiu até a sala de sinuca, correu os olhos pelas mesas, ficou de plantão na porta do banheiro e nada. Ele simplesmente tinha desaparecido.

Num relance o viu próximo à garçonete, que parecia anotar seu pedido. Alguém bloqueia sua visão e quando consegue enxergar a garçonete novamente, ele já não estava mais.

- Oi, você viu pra onde for o rapaz loiro que você acabou de anotar um pedido? Perguntou pra garçonete.
- Que rapaz? Eu não estava falando com ninguém.

Olhou pra cara mal humorada da menina e resolveu não insistir. Continuou procurando sem sorte.

Voltou pra mesa, mas já não havia mais prazer na noite. Sua amiga perguntou onde estava e ela comentou “por alto” que tinha visto uma pessoa, mas que não conseguia encontrá-lo. O rapaz que estava abraçada a amiga, intromete-se na conversa:

- Ei, eu também vi! Ele tá ali. Aponta na direção do banheiro. Ela mais do que depressa olha na direção, mas o que vê é um “baixinho” de cabelos loiros desbotados conversando com uma garota. Sua cara de decepção arrancou gargalhadas do sujeito na mesa, que caçoando dela, diz que ele era o “seu príncipe”.

Inventando a desculpa de que estava cansada, foi para a porta da entrada para tentar achar um táxi . Lá estava ele. Encostado no carro, olhava em sua direção. Claro, ela achou que era mais uma visão, quando ele aproximou-se perguntando por que ela estava triste.

- Agora eu não estou mais. Ele sorri e diz que estava cheio daquela fumaça e resolveu sair para respirar. De uma “pack” que estava ao seu lado, retira uma lata de Guinnes e oferece para a garota. Seus dedos roçam:

- Eu achei que você fosse uma visão. Mas esta impressão se desfaz quando ele aproxima-se, falando em seu ouvido:

- Eu sou real.

O sol já queimava a relva, quando ele a deixou na porta de sua casa. A secretária eletrônica estava carregada de recados das amigas que queriam saber se ela estava melhor. Um chamou sua atenção:

- E ai? Como você está? Putz, se acredita que ontem eu vi um cara super gato, loiro, de olhos azuis. Mandei um recado pra ele perguntando se ele era de verdade ou apenas uma visão a la Guinnes., só que ele sumiu! Amiga, com aquele eu ia passar bem!

Os sons de “Clock” do Coldplay eram superados pelas notas esganiçadas da garota que cantava a sua boa sorte e as cervejas da noite

Os Sons da Cohab

Tudo convergeu pra este final. Não era novidade, mesmo assim o pegou de surpresa.

A mente brinca de rebobinar, trazendo em flashes o início daquela noite fatídica.

A discussão com o padrasto, escorado na garrafa de pinga que o fazia sentir-se macho. A mãe, com a boca rachada do último soco, tentou apaziguar a briga repetindo a mesma frase, o mesmo maldito mantra: “ele não tem culpa fio, cê sabe que ele é doente”.

O irmãozinho todo molhado, berra sua indignidade e fome a plenos pulmões.

O som dos Racionais MC escapa de alguma janela da Cohab, enquanto o torcedor do Timão gritou pro seu arquiinimigo: “Chupa, Porcada”, comemorando mais um gol.

O barulho do vidro estilhaçado, quando a garrafa voou pela janela. O baque da cabeça rachada do bêbado, depois que ele seguiu o mesmo caminho da garrafa.

Os passos apressados descem as escadas e escapam dos gritos histéricos da viúva. O burburinho dos vizinhos saindo dos apartamentos pra saber o que rolou.

O perfume adocicado da namorada ficou no final do corredor junto com o adeus mudo nos lábios carmim.

O balanço enferrujado rangeu sob o peso do velho, que suspirou ao ver o presente esconder-se do passado e lamentou seu futuro.

A respiração apressada de quem foge do demônio e dos gambés. A sirene distante da viatura, avisa que o tempo está contra ele.

A terra batida gemeu embaixo dos pés da molecada no campinho de futebol mal iluminado.

As lamentações dos crentes tomados pelo espírito santo, na Universal do Reino de Deus.

As freadas e xingos dos motoristas na Avenida Itaquera e o zunido do vento nos ouvidos depois que voou por cima da moto.

A falta de ar veio antes da percepção de que estava morrendo. Mas é inevitável, como um final de novela.

Bruna nasceu no lado “certo” da cidade. Vivia com os pais em uma luxuosa mansão nos Jardins. Criada com tudo o que uma garota podia sonhar, descobriu cedo que a vida de princesa era somente a fachada da podridão em sua família. O pai quase não ficava em casa. A mãe passava os dias no salão de beleza, academia, Daslu, chá com as amigas. Até poderia ser normal, se não soubesse que o pai era na verdade chefe de uma rede de tráfico e a mãe, uma viciada em anfetaminas. Cedo, percebeu que seu castelo não era como o da Cinderela, mas sim um lugar onde a escória circulava entre taças de cristal e lençóis de fios egípcios.

Sua vida era vazia até conhecer Roberto. Foi através do Orkut, em uma comunidade da Galeria do Rock. Viu um scrap dele e admirou-se pela paixão com que defendia suas idéias. Participou da discussão e a empatia foi automática. Após algumas trocas de mensagens e conversas pelo MSN, resolveram se encontrar. Chegando à Galeria, descobriu um mundo totalmente novo. Várias tribos circulavam entre seus andares em perfeita harmonia. Roberto a aguardava no terceiro andar, e ao se deparar com aquele jovem alto e magro, vestido de preto, sentiu que seu corpo aquecia, como se finalmente estivesse viva. Foi paixão imediata.

Bruna começou a namorar Roberto às escondidas. Amava aquele homem e, sempre que podia, escapava dos seguranças para se encontrar com ele em um hotel barato do centro. Fazia isso havia um bom tempo. Até que, um dia, seu pai descobriu a mentira.

– Quem manda nesta casa sou eu! Cada centavo que entra nesta casa sai do meu bolso. Enquanto você morar aqui, quem manda sou eu! E você não vai mais se encontrar com aquele suburbano. – Renato berrava, enquanto atirava uma série de fotos sobre a cama dela. Bruna não acreditou quando olhou as fotos espalhadas. Elas mostravam Roberto em várias situações: saindo do serviço, na escola, em frente de casa, abraçado com ela na Galeria do Rock.

“Burra”, pensou. É claro que havia sido seguida e sabia quem tinha feito isso. Marcelo era o braço direito de seu pai e sonhava em se tornar o genro do milionário. Era um patife.

– Você não tem o direito de dizer como devo viver minha vida! Quem é você para botar banca de pai preocupado? O Roberto é pobre, mas é muito mais digno do que você! Apesar da falta de estudo e das dificuldades, pelo menos não trafica drogas e mata pessoas!

O último som que se ouviu na casa foi o tapa que Renato desferiu no rosto da filha.

– Nunca mais se atreva a falar assim comigo! – gritava alucinado, com um brilho insano nos olhos. – Você não sabe nada, garota. É uma pirralha mimada que nunca teve que encarar a vida. Está terminantemente proibida de sair deste quarto. E nunca mais vai ver aquele vadio.

O som da porta sendo trancada foi o estopim para Bruna. Esmurrou a porta até ficar com as juntas doendo. Pela janela, viu seu pai conversando com Marcelo, que sorriu e entrou no carro com três capangas. Bruna deitou-se na cama e chorou até adormecer, exausta.

Já escurecia, quando a porta foi aberta e sua mãe entrou. Há muitos anos não a via “limpa”. Olheiras vincavam seu rosto e as mãos tremiam ao tentar segurar um cigarro.

– Como você está? – perguntou, estirando a mão, tentando se aproximar da filha.

Bruna empurrou sua mão, repelindo-a. Letícia baixou a cabeça. Sabia o que a filha sentia. Para Bruna, a mãe era uma dondoca viciada e fútil, que nunca se aproximara dela.

– Bruna, não há tempo para explicações. Fui uma mãe ausente, mas juro que te amo mais do que tudo. Pegue sua bolsa. Nós vamos ao shopping.

– Shopping? Você enlouqueceu? Meu namorado está em risco e você pensa em compras?

– Bruna. Cale a boca e venha. – Havia uma determinação tão forte no rosto dela, que Bruna apenas apanhou sua bolsa e saiu do quarto, seguindo os passos rápidos de sua mãe.

– Vamos ao Iguatemi, José – Letícia falou ao motorista que aguardava no carro.

Seguiram pelas ruas de São Paulo em silêncio. Toda vez que Bruna tentava perguntar algo, sua mãe gesticulava para que ficasse quieta e com os olhos apontava o motorista.

– José, ficaremos na entrada do shopping enquanto você estaciona o carro. Encontre-nos na Diesel. Preciso comprar algumas roupas decentes para esta menina. – E, com um aceno de mão, dispensou o motorista e saiu em direção à porta de entrada.

– Não temos tempo – disse, empurrando Bruna para o banheiro. – Consegui tirar seu celular da pasta de seu pai. Assim que puder, me ligue para dizer se está bem. Agora vá!

– Mãe, eu não estou entendendo. Porque tudo isto agora? – disse impressionada.

Letícia sorriu. Seu rosto tinha um brilho que a filha nunca havia visto antes.

– Porque eu amo você, filha! E não quero que se torne um trapo, como me tornei.

Abraçou forte a menina e se despediu, deixando-a sozinha dentro do banheiro.

Bruna chorou pela mãe. Percebeu o quanto fora egoísta em todos aqueles anos, que não percebera que a mãe também era uma vítima de seu pai. Só enxergara o “verniz”, sem se preocupar em arranhar aquela camada de futilidade, para descobrir a verdadeira mulher ali.

Mas agora não havia tempo. Correu como louca e tomou o primeiro táxi que encontrou. Quando chegava próxima a Avenida Paulista, o telefone tocou. Era Roberto.

– Oi, pequena. – A voz estava entrecortada. Estava com dificuldade em falar.

– Roberto, meu pai sabe sobre a gente. Acho que o Marcelo está atrás de você.

– Eu sei pequena. Na verdade eles já me encontraram.

– Você está bem? O que eles fizeram com você? – Havia desespero na voz dela.

– Tudo bem, pequena. Estou bem. Encontre-me no hotel. Vou ficar te esperando.

A ligação caiu, deixando Bruna ainda mais preocupada. Deu o novo endereço para o taxista e, chegando ao hotel, nem se importou com os olhares do porteiro e subiu correndo a escada. Bateu na porta do quarto e esperou uma eternidade até que ela se abrisse.

– Ai, meu Deus! – balbuciou, ao ver o estrago que tinham feito no rosto do namorado. O olho esquerdo quase não abria de tão inchado. Vários hematomas recobriam toda a sua face. A boca estava com um corte profundo e os dentes da frente haviam sido arrancados.

Roberto cambaleou e foi amparado por ela, que carinhosamente o deitou na cama. Tirando as roupas cobertas de sangue, ela percebeu que, no corpo, o estrago era ainda maior. Parecia que algumas costelas estavam quebradas e ele respirava com dificuldade. Sentiu ódio do pai, mas principalmente de Marcelo.

– Nós temos que fugir! – ela disse, vendo que ele concordava com um gesto.

Algumas horas se passaram desde a chegada de Bruna ao quarto do hotel. Ela queria ir embora há muito tempo, mas Roberto estava fraco e resolveram esperar um pouco. Ela saiu para buscar analgésicos e bandagens, para tentar amenizar as dores do namorado. Quando retornou, ele não estava só no quarto. Marcelo aguardava com uma automática na mão.

– Ora, ora, ora, se não é a própria Julieta. Garota, você está bem encrencada.

Ao ver o namorado ainda mais ferido do que quando ela saíra, Bruna não pensou. Agiu apenas, se aproveitando da surpresa de Marcelo, que não reagiu. Desferiu uma joelhada entre as pernas dele, que, urrando de dor, se curvou sobre o próprio corpo. Bruna ergueu novamente o joelho, atingindo em cheio o nariz do bandido. Marcelo caiu no chão, se contorcendo, e Bruna chutou a arma para longe e correu para socorrer Roberto, que a esta altura estava branco como uma folha de papel e respirava de forma sôfrega.

– Vamos, meu amor. Temos que sair daqui – gritou, tentando erguer o namorado, mas parando quando uma espessa golfada de sangue saiu de sua boca.

– Não dá mais, pequena. Acho que, com essa última surra, minha costela perfurou meu pulmão. – Roberto sorriu e um novo acesso de tosse fez o sangue verter de sua boca. Bruna o encarou assustada, até que, com um último suspiro, ele relaxou e morreu em seus braços.

No meio do desespero, Bruna chorava, mas pôde escutar a risada de Marcelo.

– Acabou, Bruna. O fedelho já era! – Ele gargalhava, ainda ajoelhado devido à dor.

Um véu desceu sobre os olhos da garota. Ainda com as mãos empapadas pelo sangue do namorado, apanhou a arma de Marcelo, que estava próxima de seus pés. Marcelo só abriu a boca, mas não conseguiu gritar, pois sua cabeça explodiu, tingindo a parede. Bruna descarregou a arma nele, transformando seu rosto em uma massa disforme. Por instinto, apanhou uma outra arma da cintura do bandido, e carregou a que tinha com um outro pente, mas ninguém entrou no quarto. Ele havia vindo só. Bruna caminhou até Roberto e passou as mãos sujas de sangue no rosto do namorado. Beijou seus lábios como quem diz “até logo” e ergueu-se, com uma fria resolução formada na mente enquanto seguia para o carro com as armas em punho. Alguém pagaria por aquilo. Agora ela era o anjo que vingaria a morte de Roberto. Que vingaria o sofrimento de sua mãe. Que vingaria a vida medíocre que havia levado até ali.

Os que a viram adentrar o escritório de seu pai saíram de seu caminho. Eles reconheciam, no olhar dela, o mesmo olhar de seu pai. E tinham mais medo dela do que dele.

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