Feeds:
Posts
Comentários

Aconteceu há pelo menos 10 anos.

Resolvi ficar com meus colegas de trabalho em um Happy Hour. Quando voltei para casa,   já passava da meia noite. Era uma noite fria de Agosto. No meio da rua, à poucos passos de eu chegar em casa, fui abordada, colocada dentro de um carro e estuprada.

Meu primeiro pensamento depois que tudo passou  foi:  “Porque eu? Eu estava de calça jeans, botas sem salto, uma blusa de lã com gola alta e usava cabelos curtos. Não era o perfil de uma pessoa “Estuprável”.

Mas realmente temos perfil para ser estupradas? Ou basta sermos mulheres para que isto aconteça?

Será que nossas roupas, ou nossa postura é um convite para que um homem nos subjulgue, nos humilhe, nos machuque?

Neste último sábado, 04 de junho de 2.011, aconteceu na Avenida Paulista a Slut Walk ou “Marcha das Vadias”. Se você não conhece, visite este site

Esta marcha foi um grito de todas as mulheres que sentem-se acuadas diariamente nas ruas por olhares maliciosos, palavras abusivas, gestos agressivos dos homens e até mesmo de mulheres por nos vestirmos de maneira como eles gostam de dizer “fácil” ou “slut” (vadia).

O número de mulheres estupradas em São Paulo no último trimestre foi de 3.585. Eu já fiz parte desta estatística, infelizmente.

Poucas pessoas, além do meu círculo familiar e de amigos íntimos sabem o que aconteceu comigo.

Foram semanas de angústia, de desespero. Tive que tomar um coquetel de remédios (o mesmo coquetel que pessoas portadoras do HIV tomam). Minha alma adoeceu, meu espírito enfraqueceu. Por dias não sentia vontade de sair de casa, de trabalhar, de falar com as pessoas.

Vi o desespero nos olhos da minha mãe, a culpa na do meu irmão, como se ele tivesse falhado comigo em não estar presente naquela hora e me proteger.

Todos os dias eu fui “violentada mentalmente” pelo meu agressor.

Até que decidi dar um basta. Joguei os remédios no vaso sanitário e tomei as rédeas da minha vida.

Foi um risco? Sim, com certeza. Mas eu paguei pra ver.

Não deixei que isto afetasse minha vida sexual ou o modo de me vestir.  Mas a ferida sempre existirá.

A minha pergunta é: “Porque temos que nos privar de sermos mulheres e femininas?”

Somos vadias por usarmos decotes e saias curtas ou os homens é que são doentes por não conseguirem se controlar?

Porque temos que repensar nosso guarda roupa, nosso linguajar, nossas escolhas sexuais?

A mulher conquistou o direito ao voto, muitas mulheres são a “chefe de família” sustentando seus filhos e em alguns casos até seus maridos.

As mulheres estão no poder, estão à frente de grandes corporações.

Mas mesmo assim somos taxadas de vagabundas se tivermos vários parceiros sexuais. Somos taxadas de vadias se usamos um decote pronunciado.

Todos os dias passamos pelo constrangimento de sermos vistas apenas como um SEXY TOY.

O que esperamos é um mínimo de respeito por nossas escolhas. Que tenhamos o direito de andar livremente, sem sermos importunadas.

E mais do que nunca, que eu possa ser feminina, sem medo de ser morta por isto.

Que o direito ao meu corpo seja respeitado!

Anúncios

Um dia Perfeito

Bia acordou com os primeiros raios de sol entrando pela janela. Espreguiço-se e com um sorriso brincando nos lábios, saiu da cama indo até a varanda.

– Bom dia sol!
Cenas da noite anterior invadiram seus pensamentos, mas ela as afastou com um balançar de cabeça. Hoje nada iria estragar o seu dia.
Correu para o banheiro para tomar uma ducha rápida e sair para ir à padaria. No caminho encontrou a jaqueta do namorado.
Aproximou o nariz para sentir o seu cheiro. Novamente as cenas da noite anterior voltaram e desta vez não foi possível afastar.
– Ele tinha que estragar tudo!

Tudo começou com uma discussão boba. Novamente a cobrança por causa dos meus ciúmes. Tá, eu sei que às vezes exagerava que não tinha sido legal riscar o carro daquela vaca da academia só porque ela tinha dado uma carona pra ele. Mas, também, porque a loira oxigenada tinha que se engraçar logo para seu homem?

Depois disso, eu tentei consertar a situação, fui até o serviço dele, usando meu melhor perfume e uma lingerie de arrasar qualquer mal humor masculino. Só que ele estava na defensiva, dizendo que não agüentava mais aquelas cenas, que a sua vida tem sido um inferno. Como assim um inferno? Eu faço tudo por ele! Sou a melhor namorada do mundo.

Só que eu espero um pouco mais de atenção. É esperar muito? É querer muito que a pessoa ligue de vez em quando pra dizer se está bem? Depois ele reclama que eu ligo 10 vezes no dia. Claro eu fico aqui sem saber de nenhuma notícia, se ele dormiu bem, se chegou bem ao trabalho, o que almoçou (e principalmente com quem), se ele me ama.
Daí quando eu comecei a gritar que ele ainda tinha a cara de pau de defender aquela vagabunda, ele vem me dizer pra calar a boca!
Mas no fim ele acabou vindo comigo pra casa. Eu sabia que ele não resistiria a meu charme, afinal ele sabe que eu o amo mais do que qualquer coisa.
Só que quando chegamos aqui ele estava frio. Tentei quebrar o gelo abrindo uma garrafa de vinho e acendendo velas. Fiz meu melhor strip tease e ele só pedia pra eu parar. Quando tentei tirar a sua roupa ele me empurrou. Sabe doeu. E doeu mais quando ele disse que não dava mais. Que não podia mais continuar aquela história.

Eu chorei e implorei pra ele ficar. Disse que iria mudar que iria procurar ajuda, mas ele não queria me ouvir. Foi na direção da porta dizendo que ia embora e que era pra eu esquecer que ele existia. Fiquei com raiva e joguei a garrafa de vinho em cima dele. Que sujeira…

Ele ficou louco e veio pra cima de mim, pensei que iria me bater. Ai foi pro banheiro dizendo que eu ia pagar caro por isto. Sei lá, perdi a cabeça, não queria machucá-lo.
Um gemido a tirou de seu devaneio. Aproximou-se da cama, e do homem ensangüentado e amarrado. Fez um carinho em sua cabeça sem perceber o olhar de medo:

– Não se preocupe meu amor, este dia será perfeito para nós! Eu vou cuidar de você, prometo.

Faz muito tempo que preciso detalhar a minha experiência em fazer um nú artístico.

Na realidade este ensaio ocorreu ano passado. Mas tantas coisas aconteceram neste meio tempo que simplesmente não tive tempo (e cabeça) para escrever.

O convite surgiu da Camila Fernandes, que me apresentou para a Nathalie Gingold. Eu não pensei duas vezes, logo usei de toda a minha cara de pau e me apresentei à Nathalie, me colocando a disposição para ser uma de suas modelos.

Por sorte (minha) ela aceitou na hora. O ensaio aconteceu na casa da Mila, cercada por outras “modelos” como a Cristina Lasaitis e ela própria.

Confesso que no início foi difícil vencer a barreira de tirar a roupa e saber que todas as minhas imperfeições ” (ou seriam as minhas encanações?) seriam vistas por milhares.

Mas com o passar do tempo (e algumas taças de vinho, rs) fui relaxando e deixando que as coisas acontecessem naturalmente.

Hoje, após meses deste dia e após a dura tarefa de escolher as melhores fotos, percebo que este ensaio mexeu muito comigo.

Me mostrou o que eu posso ser, o que eu posso fazer e o que eu tenho que vencer.

Não sou a garota da Playboy. Nem nunca serei. Eu sou a mãe, irmã, filha, sobrinha. A garota do caixa do supermercado,  da fila do banco. A garota no ponto de ônibus,  que cuida de si e de sua família. A garota que ama, chora, sofre, ri, come, peida, sente dor, sente tesão.

Sou todas as garotas do mundo e sou única. Porque acima de tudo, sou Mulher.

E se eu não sou o “padrão de qualidade mundial”, não me importo. Afinal os padrões mudam. Um dia ser Marilyn Monroe com seu corpo maravilhoso tamanho 46 foi o que havia de mais belo e sensual.

Foi? Acho que não, afinal quem ainda não se sente tentada a deixar a saia subir ao passar por cima da tubulação de ar da rua?

Pequenos Desabafos

Ontem assistindo a um seriado na TV ouvi a seguinte frase: O contrário do amor não é o ódio e sim a indiferença.

Analisando friamente isto é a mais pura verdade.

Maria, seu nome soa como prece. Seu corpo leva a loucura.

Maria das Graças. Negra das ancas largas de rebolado enlouquecedor. Já fora convidada para ser musa de marchinha, mas nunca se interessou. Gostava de ser apenas Maria, a lavadeira. Nascida e criada na Cantagalo, Maria ainda pequena assistiu ao nascimento dos primeiros barracos nos idos dos anos 30. Comunidade pequena, onde todos conhecem a vida de todos, Maria era vista como moça de família, temente a Deus. Seu único pecado era ser casada com um bêbado que gostava de vida fácil e muitos goles de água ardente.

Foi isto que primeiro atraiu a atenção do Padre Vitório. A honradez daquela ovelha. O fervor com que fazia suas preces. Mas o que mais chamou sua atenção era como seus lábios carnudos se mexiam enquanto murmurava uma oração, ou quando eles ficavam ressecados e a língua corria sobre toda a sua extensão, o sorriso fácil que sempre tinha para todos, logo após o término da missa, a covinha que se formava no lábio inferior, quando estava concentrada ouvindo ao sermão. Depois, foram as pequenas gotas de suor sobre a boca, os seios que subiam e desciam, apertando o tecido do vestido simples, protestando por estarem presos e longe do toque de seu amante. Ela era a encarnação do pecado, com seu rosto de anjo.

Padre Vitório a via entrar todos os dias na igreja. Os cabelos crespos encobertos por um véu surrado. O ritual diário de ajoelhar-se fazendo o sinal da cruz. A luz da rua, formando uma aura sobre seu corpo.

Depois o caminhar. Lento, provocante, fazendo com que o coração batesse ao ritmo de seu quadril. Esquerda, direita. Até perceber que não respirava mais. Ela se aproximava, trazendo o cheiro de rosas e suor.

– A benção padre.

– Deus te abençoe.

De forma apressada, ele saia em direção à sacristia. Os demônios da luxúria turvando sua mente. O hálito dela, queimando a pele ressequida de sua mão.

Mas eram as noites que mais o atormentavam. Era quando o cansaço vencia a vigília das orações que a mente corria atrás de sua Maria. Maria com seu corpo de Ébano, adentrando ao quarto, trazendo o cheiro do suor e do pecado. Sem pudor, arrancava sua batina, esfregando o corpo no seu. A língua descrevendo um caminho de fogo seguia até seu pênis que pulsava em desespero. Os lábios carmim sugavam seu sexo, arrancando gemidos de prazer. Seus corpos enroscados em uma luta sem vencedor, seios balançando com o movimento frenético dos quadris. Maria oferecia-se para seu deleite, uma potranca de quadro, gargalhando com as lágrimas de culpa que escorriam pelo rosto do homem, regogizando-se com os grunhidos que escapavam a cada estocada. O gozo trazia a realidade. Nestas noites, o sêmen fresco escorria em suas pernas, e as lágrimas inundavam o travesseiro.

E aquela tortura diária afetou o sentido do padre. Seus sermões, cada vez mais inflamados, falavam do pecado da carne, de como o demônio rondava os inocentes. Seu olhar febril corria por sobre os fiéis e sua voz de trovão, proclamava o apocalipse:

– Temam meus filhos! O demônio está em todas as partes. Ele se esconde por trás da inocência. Ele nos testa diariamente. Mas Deus está com aqueles que não refutam o seu poder!

E na primeira fileira, lá estava ela. Maria. A cada palavra, um estremecimento transpassava seu corpo, era como se o êxtase religioso, a fizesse chegar ao êxtase sexual. Suas mãos se uniam, pressionando o tecido do vestido entre suas pernas, um orgasmo em nome do Divino. Os lábios entreabertos sugavam o ar como se fosse difícil respirar.

– O corpo de Cristo. A mão trêmula seguia em direção a língua que se ofereceu, atrevida. A Hóstia é recebida com um suspiro de prazer e adoração. Seus olhos se encontraram. Os dela, duas esferas castanhas e brilhantes. Os dele, escuridão com um segredo no fundo das íris.

Os dias se transformaram em semanas e as semanas em meses. E a aflição do homem santo, apenas aumentava. Como também as marcas da autoflagelação em sua carne. Pediu sua transferência de paróquia.

Já escurecera quando terminou de embrulhar seus parcos pertences. Uma refeição frugal o aguardava, mas foi interrompida por batidas na porta da frente. Pela urgência com que o som chegava aos seus ouvidos, percebeu que era algo importante.

– Quem é?

– Sou eu padre, Maria.

O desespero tomou conta de seu coração. Porque ela não podia deixá-lo em paz? Entreabriu a porta. Ela estava encolhida num canto. Seu olhar varria a rua, como se fugisse de algo.

– Por favor, me deixe entrar.

Afastou-se para que ela passasse, prendendo a respiração quando seus corpos roçam de leve.

– O que houve minha filha? Já é tarde.

Ela pede para passar a noite ali. Diz estar com medo do marido, que novamente chegou bêbado em casa, ameaçando-a com uma faca. Mostra a marca no pescoço e o filete de sangue que escorria.

Perguntou por que não havia chamado a policia e um sorriso, que não alcança seus olhos cansados é a única resposta.

Pegou gentilmente suas mãos levando-a em direção aos fundos da igreja. Ela podia ficar ali por esta noite, mas amanhã, eles iriam juntos prestar queixa.

Lá estava ela, como em seus sonhos. A fraca luz da rua iluminava pedaços de seu corpo. Dormia em sua cama, enquanto ele se recolhe na igreja. Mas não conseguiu resistir ao desejo de observá-la dormindo. Aproximou-se devagar, sentando na beirada do colchão. Ela respirava suavemente e seu cheiro de fêmea impregnava o pequeno quarto. Com total reverência começou a contornar com as mãos suas formas. Primeiro as pernas, passando pelos quadris e a cintura fina, aproximando-se dos seios que estremecem. Assustado olhou para o rosto que o observava com terror.

– Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome. Venha…

O restante da prece se perdeu num turbilhão de desespero. Nada podia salvá-lo agora. Nada podia mudar o que estava em sua alma. Nada podia afastar seus olhos daquela boca.

A polícia foi informada que o corpo de uma mulher havia sido encontrado no terreno baldio na entrada da favela. Havia marcas de violência sexual, e a causa da morte foi asfixiada. O médico-legista não conseguiu identificar o que havia sido usado. O padrão era de marcas profundas como se fosse um colar de contas.

Descobriram sua identidade que os levaram direto ao marido. O histórico de violência, alcoolismo e a faca com resquícios de sangue foi o suficiente para eles. Afinal a polícia não tem o hábito de perder tempo em briga de marido e mulher, ainda mais de favelados.

A nova paróquia era nos confins do nordeste. A vida seguiu seu rumo, entremeadas de missas, confissões e trabalhos de evangelização. Quando a noite caía e enquanto murmurava sua prece, o primeiro sinal de sua presença já se fazia sentir. Era um cheiro de rosas, suor e carne podre. Em meios às lágrimas de desespero, sentia as mãos geladas tocarem seu ombro, e o corpo rijo encostar-se ao seu.

– A benção, padre.

Boas Novas

Boas notícias. Fui convidada pela Editora Andross a participar de uma antologia de contos de terror! O lançamento será dia 21 de novembro.

Depois darei mais detalhes, o que posso adiantar que o título do livro será: Marcas na Parede…. arrepiante! rs

Natureza morta? Nunca!

Natureza viva, vibrante, onipresente.

Coração, alma, sangue verde!

Em cada pedaço do mundo, em cada célula do meu corpo…